Recorda desde a divina matriz o real propósito a que vens AQUI e pelo qual AGORA te manifestas!

Enquanto um diz: Namastê, te saúdo e te reconheço como a sagrada divindade. Em outro lugar, o outro pulsa: In lake´sh, eu sou o outro em você a serviço planetário da compreensão, da aceitação, da cura, da libertação e da realização.

Aquele que tudo vê, nos inspira e responde: "Com visão e esperança danço e canto para o coração divino." Acredito que assim nasce o puro, verdadeiro e divino AMOR, nossa responsabilidade básica.

Aqui e agora é tudo que existe de ETERNO. Respiro e sinto o que simplesmente É e dentro dessa Eternidade, a lembrança IMORTAL: SOMOS UM na Divina Presença.

Seja uno com cada ser-elemento manifesto e a gratidão lhe conecta na fonte de amor e alegria infinita, paz e compaixão infinita, paciência e tolerância infinita.

No espelho do ser, o reflexo D´eus. A união do Todo se traduz num som... OM... AMEM... silêncio!

OM TAT SAT OM...


Navegue por Eternas Expressões Imortais

Mostrando postagens com marcador Contos e textos Multiplos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos e textos Multiplos. Mostrar todas as postagens

domingo, 27 de março de 2011

Personificação da Alma, Psiquê x Eros, o amor

"O ser amado dentro de ti,
é o mesmo dentro de mim.

A árvore se esconde dentro da semente.
Deixe para traz a arrogância,
nenhum de nós está além do outro.

No amor existe mais poder
do que podemos imaginar."
Kabir

 

Tudo começou com um questionamento sobre o amor, esta energia primeva que nos move e inspira: http://pt.wikipedia.org/wiki/Amor

E assim acabei por cair na pesquisa sobre este mito simbólico que muito desvela as tramas pela qual nos emaranhamos pela busca deste amor com a alma: http://www.imagick.org.br/pagmag/pardal/mitoeros.html

* * *

Os deuses da mitologia grega costumam ter dois nomes, um grego e outro romano. Assim, Eros é o nome grego do Cupido e sua tradução para o português é Amor. Palavras com erótico e erotismo vem daí. Afrodite e Vênus também são a mesma deusa. Psiquê só tem esse nome que, em grego, significa alma. Psíquico, psiquiatria e psicologia nasceram dessa raiz. O mito de Eros e Psiquê é a história da ligação entre o amor e a alma. Volúpia, a filha de Psiquê e Eros, é a persofinicação do prazer em todas as suas formas.

Psiquê (em grego: Ψυχή, Psychē) é uma personagem da mitologia grega, personificação da alma. Psique era a mais nova de três filhas de um rei de Mileto e era extremamente bela. Sua beleza era tanta que pessoas de várias regiões iam admirá-la, assombrados, rendendo-lhe homenagens que só eram devidas à própria Afrodite.

Seu mito é narrado no livro O Asno de Ouro de Apuleio, que a cita como uma bela mortal por quem Eros, o deus do amor, se apaixonou. Tão bela que despertou a fúria de Afrodite, deusa da beleza e do amor, mãe de Eros - pois os homens deixavam de frequentar seus templos para adorar uma simples mortal.

Profundamente ofendida e enciumada, Afrodite enviou seu filho, Eros, para fazê-la apaixonar-se pelo homem mais feio e vil de toda a terra. Porém, ao ver sua beleza, Eros apaixonou-se profundamente. A deusa mandou seu filho atingir Psiquê com suas flechas. Mas, ao contrário do esperado, Eros acaba se apaixonando pela moça - acredita-se que tenha sido espetado acidentalmente por uma de suas próprias setas.

O pai de Psique, suspeitando que, inadvertidamente, havia ofendido os deuses, resolveu consultar o oráculo de Apolo, pois suas outras filhas encontraram maridos e, no entanto, Psique permanecia sozinha. Através desse oráculo, o próprio Eros ordenou ao rei que enviasse sua filha ao topo de uma solitária montanha, onde seria desposada por uma terrível serpente. A jovem aterrorizada foi levada ao pé do monte e abandonada por seu pesarosos parentes e amigos. Conformada com seu destino, Psique foi tomada por um profundo sono, sendo, então, conduzida pela brisa gentil de Zéfiro a um lindo vale.

Quando acordou, caminhou por entre as flores, até chegar a um castelo magnífico. Notou que lá deveria ser a morada de um deus, tal a perfeição que podia ver em cada um dos seus detalhes. Tomando coragem, entrou no deslumbrante palácio, onde todos os seus desejos foram satisfeitos por ajudantes invisíveis, dos quais só podia ouvir a voz.

Chegando a escuridão, foi conduzida pelos criados a um quarto de dormir. Certa de ali encontraria finalmente o seu terrível esposo, começou a tremer quando sentiu que alguém entrara no quarto. No entanto, uma voz maravilhosa a acalmou. Logo em seguida, sentiu mãos humanas acariciarem seu corpo. A esse amante misterioso, ela se entregou. Quando acordou, já havia chegado o dia e seu amante havia desaparecido. Porém essa mesma cena se repetiu por diversas noites.

Os dias se passavam, e ela não se entediava, tantos prazeres tinha: acreditava estar casada com um monstro, pois Eros não lhe aparecia e, quando estavam juntos, ficava invisível. Ele não podia revelar sua identidade pois, assim, sua mãe descobriria que não cumprira suas ordens - e apesar disto, Psiquê amava o esposo, que a fizera prometer-lhe jamais tentaria descobrir seu rosto.

Passado um tempo, a bela jovem sentiu saudade de suas irmãs e, implorando ao marido que permitisse que elas fossem trazidas a seu encontro. Eros resistiu e, ante sua insistência, advertiu-a para a alma invejosa das mulheres.

Enquanto isso, suas irmãs continuavam a sua procura, mas seu esposo misterioso a alertou para não responder aos seus chamados. Psique sentindo-se solitária em seu castelo-prisão, implorava ao seu amante para deixá-la ver suas irmãs. Finalmente, ele aceitou, mas impôs a condição que, não importando o que suas irmãs dissessem, ela nunca tentaria conhecer sua verdadeira identidade.

Quando suas irmãs entraram no castelo e viram aquela abundância de beleza e maravilhas, foram tomadas de inveja. Notando que o esposo de Psique nunca aparecia, perguntaram maliciosamente sobre sua identidade. Embora advertida por seu esposo, Psique viu a dúvida e a curiosidade tomarem conta de seu ser, aguçadas pelos comentários de suas irmãs.

Seu esposo alertou-a que suas irmãs estavam tentando fazer com que ela olhasse seu rosto, mas se assim ela fizesse, ela nunca mais o veria novamente. Além disso, ele contou-lhe que ela estava grávida e se ela conseguisse manter o segredo ele seria divino, porém se ela falhasse, ele seria mortal.

Ao receber novamente suas irmãs, Psique contou-lhes que estava grávida, e que sua criança seria de origem divina. Suas irmãs ficaram ainda mais enciumadas com sua situação, pois além de todas aquelas riquezas, ela era a esposa de um lindo deus. Assim, trataram de convencer a jovem a olhar a identidade do esposo, pois se ele estava escondendo seu rosto era porque havia algo de errado com ele. Ele realmente deveria ser uma horrível serpente e não um deus maravilhoso.

Assustada com o que suas irmãs disseram, escondeu uma faca e uma lâmpada próximo a sua cama, decidida a conhecer a identidade de seu marido, e se ele fosse realmente um monstro terrível, matá-lo. Ela havia esquecido dos avisos de seu amante, de não dar ouvidos a suas irmãs.

A noite, quando Eros descansava ao seu lado, Psique tomou coragem e aproximou a lâmpada do rosto de seu marido, esperando ver uma horrenda criatura. Para sua surpresa, o que viu porém deixou-a maravilhada. Um jovem de extrema beleza estava repousando com tamanha quietude e doçura que ela pensou em tirar a própria vida por haver dele duvidado.

Enfeitiçada por sua beleza, demorou-se admirando o deus alado. A jovem, espantada e admirada com a beleza de seu marido, desastradamente deixa pingar uma gota de azeite quente sobre o ombro direito dele. Eros acorda - o lugar onde caiu o óleo fervente de imediato se transforma numa chaga: o Amor está ferido.


Eros, acorda e olhou-a assustado, e voou pela janela do quarto, dizendo:

- "Tola Psique! É assim que retribuis meu amor? Depois de haver desobedecido as ordens de minha mãe e te tornado minha esposa, tu me julgavas um monstro e estavas disposta a cortar minha cabeça? Vai. Volta para junto de tuas irmãs, cujos conselhos pareces preferir aos meus. Não lhe imponho outro castigo, além de deixar-te para sempre. O amor não pode conviver com a suspeita."

Percebendo que fora traído, Eros enlouquece, e foge, gritando repetidamente: O amor não sobrevive sem confiança!

Psiquê fica sozinha, e desesperada com seu erro, no imenso palácio. Precisa reconquistar o Amor perdido. Eros voa pela janela e Psiquê tenta segui-lo, cai da janela e fica desmaiada no chão.

Quando se recompôs, notou que o lindo castelo a sua volta desaparecera, e que se encontrava bem próxima da casa de seus pais. Psique ficou inconsolável. Tentou suicidar-se atirando-se em um rio próximo, mas suas águas a trouxeram gentilmente para sua margem. Foi então alertada por Pan para esquecer o que se passou e procurar novamente ganhar o amor de Eros.

Por sua vez, quando suas irmãs souberam do acontecido, fingiram pesar, mas partiram então para o topo da montanha, pensando em conquistar o amor de Eros. Lá chegando, chamaram o vento Zéfiro, para que as sustentasse no ar e as levasse até Eros. Mas, Zéfiro desta vez não as ergueram no céu, e elas caíram no despenhadeiro, morrendo.

Psique, resolvida a reconquistar a confiança de Eros, saiu a sua procura por todos os lugares da terra. Psiquê caminha noite e dia, sem repouso nem alimentação. Avista um belo templo no cume de uma montanha e acreditando encontrar seu amor escalou a montanha. Com esperança de lá encontrar o amado, entrou no templo e viu uma grande bagunça de grãos de trigo e cevada, ancinhos e foices espalhados por todo o recinto. Convencida que não devia negligenciar o culto a nenhuma divindade, pôs-se a arrumar aquela desordem, colocando cada coisa em seu lugar.

O templo pertencia a deusa Ceres (Deméter), grata pelo favor da bela moça lhe diz o que fazer para reconquistar o marido. Primeiro ela precisaria conseguir o perdão da sogra.

- "Ó Psique, embora não possa livrá-la da ira de Afrodite, posso ensiná-la a fazê-lo com suas próprias forças: vá ao seu templo e renda a ela as homenagens que ela, como deusa, merece."

Afrodite, ao recebê-la em seu templo, não esconde sua raiva. Afinal, por aquela reles mortal seu filho havia desobedecido suas ordens e agora ele se encontrava em um leito, recuperando-se da ferida por ela causada. Como condição para o seu perdão, a deusa impôs uma série de tarefas que deveria realizar, tarefas tão difíceis que poderiam causar sua morte.

Primeiramente, deveria, antes do anoitecer, separar uma grande quantidade de grãos misturados de trigo, aveia, cevada, feijões e lentilhas. Psique ficou assustada diante de tanto trabalho, porém uma formiga que estava próxima, ficou comovida com a tristeza da jovem e convocou seu exército a isolar cada uma das qualidades de grão.

Como 2ª tarefa, Afrodite ordenou que fosse até as margens de um rio onde ovelhas de lã dourada pastavam e trouxesse um pouco da lã de cada carneiro. Psique estava disposta a cruzar o rio quando ouviu um junco dizer que não atravessasse as águas do rio até que os carneiros se pusessem a descansar sob o sol quente, quando ela poderia aproveitar e cortar sua lã. De outro modo, seria atacada e morta pelos carneiros. Assim feito, Psique esperou até o sol ficar bem alto no horizonte, atravessou o rio e levou a Afrodite uma grande quantidade de lã dourada.

Sua 3ª tarefa seria subir ao topo de uma alta montanha e trazer para Afrodite uma jarra cheia com um pouco da água escura que jorrava de seu cume. Dentre os perigos que Psique enfrentou, estava um dragão que guardava a fonte. Ela foi ajudada nessa tarefa por uma grande águia, que voou baixo próximo a fonte e encheu a jarra com a negra água.

Irada com o sucesso da jovem, Afrodite planejou uma última, porém fatal, tarefa. Psique deveria descer ao mundo inferior e pedir a Perséfone, que lhe desse um pouco de sua própria beleza, que deveria guardar em uma caixa. Desesperada, subiu ao topo de uma elevada torre e quis atirar-se, para assim poder alcançar o mundo subterrâneo. A torre porém murmurou instruções de como entrar em uma particular caverna para alcançar o reino de Hades. Ensinou-lhe ainda como driblar os diversos perigos da jornada, como passar pelo cão Cérbero e deu-lhe uma moeda para pagar a Caronte pela travessia do rio Estige, advertindo-a:

- "Quando Perséfone lhe der a caixa com sua beleza, toma o cuidado, maior que todas as outras coisas, de não olhar dentro da caixa, pois a beleza dos deuses não cabe a olhos mortais."

Seguindo essas palavras, conseguiu chegar até Perséfone, que estava sentada imponente em seu trono e recebeu dela a caixa com o precioso tesouro. Tomada porém pela curiosidade em seu retorno, abriu a caixa para espiar. Ao invés de beleza havia apenas um sono terrível que dela se apossou.

Eros, curado de sua ferida, voou ao socorro de Psique e conseguiu colocar o sono novamente na caixa, salvando-a. Lembrou-lhe novamente que sua curiosidade havia novamente sido sua grande falta, mas que agora podia apresentar-se à Afrodite e cumprir a tarefa.

Enquanto isso, Eros (Cupido, Amor) foi ao encontro de Zeus (Júpiter) e implorou a ele que apaziguasse a ira de Afrodite (Vênus) ratificasse o seu casamento com Psique. Atendendo seu pedido, o grande deus do Olimpo ordenou que Hermes (Mercúrio) conduzisse a jovem à assembléia celestial dos deuses e a ela foi oferecida uma taça de ambrosia, tornando-se imortal. Então com toda a cerimônia, Eros casou-se com Psique, e no devido tempo nasceu sua filha, chamada Voluptas (Volúpia ou Prazer).

Eros e Psiquê, ou seja, o Amor e a Alma, permaneceram juntos por toda a eternidade.


* * *
Em grego "psiquê" significa tanto "borboleta" como "alma". Uma alegoria a imortalidade da alma, como a borboleta que depois de uma vida rastejante como lagarta, flutua na brisa do dia e torna-se um belo aspecto da primavera. É considerada a alma humana purificada pelos sofrimentos e preparada para gozar a pura e verdadeira felicidade.


Uma linda história de nossa prórpia busca pela alma e o amor supremo, divino e puro!

* * *

Tenho também um artigo que relata mais especificamente o significado de cada simbolo, se te interessar, me escreva!

OM

sábado, 12 de março de 2011

A importância de fechar a boca e abrir os braços


Uma amiga ligou com notícias perturbadoras: a filha solteira estava grávida.

Relatou a cena terrível ocorrida no momento em que a filha finalmente contou a ela e ao marido sobre a gravidez.

Houve acusações e recriminações, variações sobre o tema "Como pôde fazer isso conosco?" Meu coração doeu por todos: pelos pais que se sentiam traídos e pela filha que se envolveu numa situação complicada como aquela.

Será que eu poderia ajudar, servir de ponte entre as duas partes?

Fiquei tão arrasada com a situação que fiz o que faço – com alguma frequência – quando não consigo pensar com clareza: liguei para minha mãe. Ela me lembrou de algo que sempre a ouvi dizer. Imediatamente, escrevi um bilhete para minha amiga, compartilhando o conselho de minha mãe: "Quando uma criança está em apuros, feche a boca e abra os braços."

Tentei seguir o mesmo conselho na criação de meus filhos. Tendo tido cinco em seis anos, é claro que nem sempre conseguia.

Tenho uma boca enorme e uma paciência minúscula.

Lembro-me de quando Kim, a mais velha, estava com quatro anos e derrubou o abajur de seu quarto. Depois de me certificar de que não estava machucada, me lancei numa invectiva sobre aquele abajur ser uma antiguidade, sobre estar em nossa família há três gerações, sobre ela precisar ter mais cuidado e como foi que aquilo tinha acontecido – e só então percebi o pavor estampado em seu rosto. Os olhos estavam arregalados, o lábio tremia.

Então me lembrei das palavras de minha mãe. Parei no meio da frase e abri os braços. Kim correu para eles dizendo: – Desculpa... Desculpa – repetia, entre soluços. Nos sentamos em sua cama, abraçadas, nos embalando. Eu me sentia péssima por tê-la assustado e por fazê-la crer, até mesmo por um segundo, que aquele abajur era mais valioso para mim do que ela.

– Eu também sinto muito, Kim – disse quando ela se acalmou o bastante para conseguir me ouvir. Gente é mais importante do que abajures. Ainda bem que você não se cortou. Felizmente, ela me perdoou.

O incidente do abajur não deixou marcas perenes. Mas o episódio me ensinou que é melhor segurar a língua do que tentar voltar atrás após um momento de fúria, medo, desapontamento ou frustração.

Quando meus filhos eram adolescentes – todos os cinco ao mesmo tempo – me deram inúmeros outros motivos para colocar a sabedoria de minha mãe em prática: problemas com amigos, o desejo de ser popular, não ter par para ir ao baile da escola, multas de trânsito, experimentos de ciência malsucedidos e ficar em recuperação.

Confesso, sem pudores, que seguir o conselho de minha mãe não era a primeira coisa que me passava pela mente quando um professor ou diretor telefonava da escola. Depois de ir buscar o infrator da vez, a conversa do carro era, por vezes, ruidosa e unilateral. Entretanto, nas ocasiões em que me lembrava da técnica de mamãe, eu não precisava voltar atrás no meu mordaz sarcasmo, me desculpar por suposições errôneas ou suspender castigos muito pouco razoáveis. É impressionante como a gente acaba sabendo muito mais da história e da motivação atrás dela, quando está abraçando uma criança, mesmo uma criança num corpo adulto.

Quando eu segurava a língua, acabava ouvindo meus filhos falarem de seus medos, de sua raiva, de culpas e arrependimentos. Não ficavam na defensiva porque eu não os estava acusando de coisa alguma. Podiam admitir que estavam errados sabendo que eram amados, contudo. Dava para trabalharmos com "o que você acha que devemos fazer agora", em vez de ficarmos presos a "como foi que a gente veio parar aqui?"

Meus filhos hoje estão crescidos, a maioria já constituiu a própria família.

Um deles veio me ver há alguns meses e disse "Mãe, cometi uma idiotice..." Depois de um abraço, nos sentamos à mesa da cozinha.

Escutei e me limitei a assentir com a cabeça durante quase uma hora enquanto aquela criança maravilhosa passava o seu problema por uma peneira. Quando nos levantamos, recebi um abraço de urso que quase esmagou os meus pulmões.

– Obrigado, mãe. Sabia que você me ajudaria a resolver isto.

É incrível como pareço inteligente quando fecho a boca e abro os braços.

* * *

Histórias para aquecer o coração das mães
Jack Canfield, Mark Victor Hansen e outros
Editora Sextante

quinta-feira, 3 de março de 2011

O Amor Triunfou Sobre A Morte

"Se, na escuridão,
a mente nunca vacila,

se o amor
e a saudade nunca enfraquecem,
então você provou a si mesmo
que tem o amor de Deus."
Sri Gyanamata


A História de Savitri

Esta é a história de uma das mulheres mais castas do planeta. Muitos sábios a mencionam como exemplo da mulher ideal a ser seguido.

Havia um rei chamado Asvapati, que tinha uma filha tão formosa e meiga, que lhe deram o nome de Savitri, que está ligado a uma oração sagrada dos Vedas. Quando era jovem e seguindo os costumes ksatryas, seu pai mandou-lhe escolher seu marido. Savitri aceitou o conselho de seu pai. A carruagem real, acompanhada de uma brilhante escolta e antigos potentados que dela cuidavam, visitou várias cortes vizinhas e outros reinos distantes, sem que nenhum príncipe conseguisse sensibilizar seu coração.

Aconteceu que a comitiva passou por uma ermida localizada em um daqueles bosques da Índia antiga, no qual a caça era proibida, de sorte que os animais que ali viviam tinham perdido todo o medo do homem e até os peixes dos lagos apanhavam com a boca migalhas de pão, que lhes eram dadas com as mãos. Havia milhares de anos que não se matava nenhum ser daquele bosque; os sábios e anciãos desgostosos do mundo lá se retiravam, a fim de viverem em companhia dos cervos e das aves, entregando-se à meditação e aos exercícios espirituais pelo resto de suas vidas.

Nesta época, um rei chamado Dyumatsena, já velho e cego, vencido e destronado por seus inimigos, refugiou-se no bosque fechado com sua esposa rainha e seus filhos, dos quais o mais velho se chamava Satyavan. O rei e sua família ali viviam de forma ascética, em rigorosa penitência.

Na Índia antiga, era costume que todo rei ou príncipe, por mais poderoso que fosse, ao passar pela ermida de um varão sábio e santo retirado do mundo, ali se detivesse para tributar-lhe homenagens; tais eram o respeito e a veneração que os reis prestavam aos yogis e rishis.

O mais poderoso monarca da Índia sentia-se honrado, quando podia demonstrar sua descendência de algum yogi ou rishi que tivesse vivido no bosque, alimentando-se de frutas e raízes e coberto de andrajos.

Assim, quando se aproximavam a cavalo de alguma ermida, apeavam muito antes de chegar a ela e andavam a pé até o local onde estava o eremita. Quando viajavam de carruagem ou armados, também desciam e desvencilhavam-se de seus paramentos militares e depois entravam na ermida, pois era costume que ninguém entrasse naqueles retiros ou ashramas sagrados com armamentos militares, mas sim com uma atitude serena, pacífica e humilde.

Fiel ao costume, Savitri entrou na ermida do bosque sagrado e, ao ver Satyavan, filho do rei destronado e eremita, ficou profundamente apaixonada por ele. Antes, ela havia desprezado os príncipes de todas as cortes e unicamente o filho do destronado Dyumatsena havia lhe arrebatado o coração.

Quando a comitiva voltou à corte, o rei Asvapati perguntou à filha:
- Diz-me, Savitri querida, vistes alguém digno de ser teu esposo?

- Sim, pai querido – respondeu Savitri, ruborizada.

- Qual é o nome do príncipe?

- Já não é príncipe, meu pai, porque é filho do rei Dyumatsena, que perdeu o seu reino. Não tem patrimônio e vive como um sannyasi no bosque, colhendo ervas e raízes para alimentar-se e manter seus velhos pais, com os quais mora numa cabana.

Ao ouvir o relato dos lábios de sua filha, o rei Asvapati consultou o sábio Narada, que se achava presente. Narada declarou que aquela escolha era o mais funesto presságio que a princesa poderia ter. O rei pediu a Narada que explicasse os motivos de sua declaração e ele respondeu:

- Daqui a um ano este jovem morrerá.

Aterrorizado por este vaticínio, o pai disse à filha:
- Pensa, Savitri, que este jovem que escolhestes morrerá dentro de um ano e ficarás viúva. Desiste da escolha, filha minha; não te cases com um jovem de tão curta vida.

Contudo, Savitri respondeu:
- Não importa, meu pai. Não me peças que me case com outro e sacrifique a castidade da minha mente, porque em meu pensamento e coração, amo o valente e virtuoso Satyavan e o escolhi para esposo. Uma donzela escolhe uma só vez e jamais quebra sua fidelidade.

Ao vê-la tão decidida, o pai resignou-se à vontade de Savitri que, desta forma, casou-se com o príncipe Satyavan e deixou tranqüilamente o palácio do seu pai para viver na cabana do bosque com o eleito do seu coração, ajudando-o a sustentar seus velhos pais. Embora Savitri soubesse quando seu marido iria morrer, sobre isto guardou estrito segredo.

Todos os dias, Satyavan entrava no bosque para colher frutas, flores e reunir feixes de lenha, voltando com a carga para a cabana, onde sua esposa preparava sua refeição.

Assim transcorria o tempo, até que três dias antes da data fatal, a moça resolveu passar três dias e três noites em completo jejum e fervorosas orações, sem deixar transparecer sua angústia e ocultando suas lágrimas. Finalmente, amanheceu o dia marcado pelo presságio e, não querendo perder de vista seu marido nem por um momento, Savitri solicitou e obteve dos seus pais permissão para acompanha-lo, quando ele saísse para a colheita diária de ervas, raízes e frutas silvestres no interior do bosque. Assim foi feito.

Estavam os dois no bosque quando, com voz enfraquecida, Satyavan queixou-se à sua esposa dizendo:
- Querida Savitri, sinto-me aturdido, meus sentidos se esvaem e o sono me invade. Deixa-me repousar um pouco ao teu lado.

Trêmula e assustada, Savitri replicou:
- Meu amado, vem e repousa tua cabeça em meu colo.

Satyavan reclinou a cabeça ardente no colo de sua esposa e, instantes depois, exalou seu último suspiro.

Abraçada ao cadáver do seu marido, desfeita em lágrimas, Savitri permaneceu na solidão do bosque, sentada no chão, até que chegaram os emissários da morte para levar a alma de Satyavan.

No entanto, nenhum deles pode acercar-se do local onde estava Savitri com o cadáver de Satyavan, porque ardia um círculo de fogo que rodeava a união formada pela vivente e seu marido morto.

Por esta razão, os emissários voltaram até onde se encontrava Yamaraja, o semideus da morte, e explicaram-lhe porque não puderam trazer a alma de Satyavan.

Assim sendo, Yamaraja foi pessoalmente ao bosque e, como era um semideus, conseguiu atravessar sem perigo o círculo de fogo e aproximar-se do local em que estava Savitri. Lá chegando, disse a ela:
- Minha filha, entrega-me este cadáver, pois já sabes que a morte é o destino de todo mortal. A morte é o destino irrevogável do homem.

Savitri deixou o cadáver do seu marido e Yamaraja, tirando-lhe a alma, com ela se afastou; porém, não havia andado muito, quando ouviu atrás de si passos sobre as folhas secas. Ao voltar-se, viu Savitri, a quem disse com paternal ternura:
- Savitri, minha filha, por que me segues? Este é o destino de todos os mortais.

Savitri respondeu:
- Não sigo a ti, senhor meu, porque o destino da mulher é ir onde seu amor a leva; a lei eterna não separa o amoroso esposo da fiel esposa.

Então Yamaraja disse:
- Pede-me a graça que quiseres, menos a vida do teu marido.

Ao que ela respondeu:
- Se desejas outorgar-me uma graça, Ó semideus da morte, peço-te que devolvas a vista de meu sogro e que ele seja feliz.

Yamaraja replicou:
- Cumpra-se teu piedoso desejo, respeitosa filha.

E ele seguiu seu caminho com a alma de Satyavan. Novamente ouvindo passos, voltou-se e viu que Savitri ainda o acompanhava.
- Savitri, minha filha, ainda me segues?

- Sim, meu senhor; nada posso fazer, pois embora me esforce por voltar, a mente corre atrás do meu marido e o corpo obedece. Tens a alma de Satyavan e como sua alma também é minha, meu corpo a acompanha.

Então, Yamaraja disse:
- Agradam-me tuas palavras, formosa Savitri. Pede-me outra graça, menos a vida do teu marido.

- Se vos dignares a conceder-me outra graça, faze com que meu sogro recupere seu reino e suas riquezas.

- Concedo-te, filha amorosa, mas volta para seu lugar, porque nenhum ser vivente pode andar em companhia de Yamaraja.

E o semideus da morte seguiu seu caminho. Contudo, Savitri insistia em acompanha-lo e, voltando-se, Yamaraja com ela dialogou:
- Nobre Savitri, não me sigas com tua dor sem esperança.

- Não tenho remédio, senão ir para onde levas meu marido.

- Suponha, Savitri, que teu marido foi um perverso e que o levo para o inferno. Irias acompanhar teu marido?

- Iria alegre para onde ele fosse, quer na vida, quer na morte, seja no céu, seja no inferno.

- Benditas sejam tuas palavras, minha filha. Deixaste-me comovido. Pede-me outra graça, que não seja a vida de teu marido.

- Pois, já que me permites pedir-vos, faze com que não se quebre a régia estirpe do meu sogro e que seu reino seja herdado pelos filhos de Satyavan.

Yamaraja sorriu e disse:
- Filha minha, teu desejo será cumprido. Aqui tens a alma do teu marido. Ele voltará a viver e será pai dos teus filhos que, com o tempo, serão reis. Volta para tua casa. O amor triunfou sobre a morte. Jamais mulher alguma amou como tu e és a prova de que até eu, o semideus da morte, nada posso contra a força de um verdadeiro e perseverante amor!

Srila Prabhupada também contava esta história e sempre que se quer falar do exemplo de uma esposa ideal, os sábios contavam a história de Savitri, uma das mulheres mais castas e virtuosas da cultura védica.

* * *

Texto enviado por Kesava Kasmiri Das

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Santissima Mae Maria



Bezerra de Menezes acabava de presidir a uma das sessões públicas da Casa de Ismael, na Avenida Passos. Era uma noite de terça-feira do mês de Junho de 1896.

Sua palavra esclarecida e carinhosa, à moda de uma chuva fina e criadeira, no dizer de M. Quintão, penetrava às almas de quantos, encarnados e desencarnados, lhe ouviam a evangélica dissertação sobre uma Lição do Livro da Vida!

Os olhos estavam marejados de lágrimas, tanto de ouvintes como os do próprio Orador. Acabada a Sessão, descera Bezerra com passos tardos, ainda emocionado, as escadas da Federação Espírita Brasileira.

E ia, humildemente, indagando dos mais íntimos, se ferira alguém com sua palavra, que lhe perdoassem o descuido, e ia descendo e afagando a todos que o esperavam ávidos dos seus conselhos, dos seus sorrisos, do seu olhar manso e bom.

No sucedâneo da escada, localizou um irmão, de seus 45 anos, cabelos em desalinho, com a roupa suja e amarrotada. Os dois se olharam. Bezerra compreendeu logo que ali estava um Caso, todo particular, para ele resolver.

Oh! Benditos os que têm olhos no coração! E Bezerra os tinha e os tem!

E levou o desconhecido para um canto e lhe ouviu, com atenção, o desabafo, o pedido:

- Dr. Bezerra, estou sem emprego, com a mulher e dois filhos doentes e famintos... E eu mesmo, como vê, estou sem alimento e febril!

Bezerra, apiedado, verificou se ainda tinha algum dinheiro. Nada encontrou nos bolsos. Apenas a passagem do bonde...

Tornou-se mais apiedado e apreensivo. Levantou os olhos já molhados de pranto para o alto e, numa Prece muda, pediu Inspiração a Maria Santíssima, seu Anjo Tutelar e solucionador de seus problemas. Depois, virando-se para o Irmão:

- Meu filho, você tem fé em Nossa Senhora? A Mãe do Divino Mestre, a nossa Mãe Querida?

- Tenho e muita Dr. Bezerra!

- Pois, então, em Seu Santíssimo Nome, receba este abraço.

E abraçou o desesperado Irmão, envolvente e demoradamente.

E, despedindo-se:

-Vá, meu filho, na Paz de Jesus e sob a protecção do Anjo da Humanidade. E, em seu lar, faça o mesmo com todos os seus familiares, abraçando-os, afagando-os. E confie Nela, no Amor da Rainha do Céu, que seu Caso há de ser resolvido.

Bezerra partira. A caminho do lar, meditava: teria cumprido seu dever, será que possibilitara ajuda ao irmão em prova, faminto e doente?

E arrependia-se por não lhe haver dado senão um abraço.

Não possuía nenhum dinheiro. O próprio anel de grau já não estava nos seus dedos. Tudo havia dado. Não tendo dinheiro, dera algo de si mesmo, vibrações, bom ânimo, moeda da alma, ao irmão sofredor e não tinha certeza de que isso lhe bastara...

E, neste estado de espírito, preocupado pela sorte de um seu semelhante, chegou ao lar.

Uma semana passara-se.Bezerra não se recordava mais do sucedido. Muitos eram os problemas alheios. Após a sessão de outra terça-feira, descia as escadas da Federação.

Alguém, no mesmo lugar da escada, trazendo na fisionomia toda a emoção do agradecimento, toca-lhe o braço e lhe diz:

-Venho agradecer-lhe, Dr. Bezerra, o abraço milagroso que me deu na semana passada, neste local e nesta mesma hora. Daqui saí logo sentindo-me melhor. Em casa, cumpri seu pedido e abracei minha mulher e meus filhos. Na linguagem do coração, oramos todos à Mãe do Céu. Na água que bebemos e demos aos familiares, parece, continha alimento.

Pois dormimos todos bem. No dia seguinte, estávamos sem febre e como que alimentados... E veio-me uma inspiração, guiando-me a uma porta, que se abriu e alguém por ela saiu, ouviu meu problema, condoeu-se de mim e me deu um emprego, no qual estou até hoje. E venho lhe agradecer a grande dádiva que o senhor me deu, arrancada de si mesmo, maior e melhor do que dinheiro!

O ambiente era tocante!

Lágrimas caíam tanto dos olhos de Bezerra como do irmão beneficiado e desconhecido. E uma Prece muda, de dois corações unidos, numa mesma força gratulatória, subiu aos Céus, louvando Aquela que é, em verdade, a Porta de nossas Esperanças, a Mãe Sublime de todas as Mães, a Advogada querida de todas as Nossas Causas!

Louvado seja o Nome de Maria Santíssima! E abençoado seja o nome de quem, em Seu Nome, num abraço, fez maravilhas, a verdadeira Caridade Desconhecida!”

* * *

[retirado de ‘Lindos casos de Bezerra de Menezes’, Ramiro Gama, Editora Lake. São Paulo - Brasil]

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Solte a Panela

"Quando o coração é belo e generoso,
tudo é festa e transformação;
tudo é compreensão,
tudo é agradecimento,
tudo é luz!"




Certa vez, um urso faminto perambulava pela floresta em busca de alimento. A época era de escassez, porém, seu faro aguçado sentiu o cheiro de comida e o conduziu a um acampamento de caçadores.

Ao chegar lá, o urso, percebendo que o acampamento estava vazio, foi até a fogueira, ardendo em brasas, e dela tirou um panelão de comida. Quando a tina já estava fora da fogueira, o urso a abraçou com toda sua força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo.

Enquanto abraçava a panela, começou a perceber algo lhe atingindo. Na verdade, era o calor da tina...

Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a panela encostava.

O urso nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras pelo seu corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida. Começou a urrar muito alto. E, quanto mais alto rugia, mais apertava a panela quente contra seu imenso corpo. Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava contra o seu corpo e mais alto ainda rugia.

Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a tina de comida. O urso tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na panela e, seu Imenso corpo, mesmo morto, ainda mantinha a expressão de estar rugindo.

Quando terminei de ouvir esta história de um mestre, percebi que, em nossa vida, por muitas vezes, abraçamos certas coisas que julgamos ser importantes. Algumas delas nos fazem gemer de dor, nos queimam por fora e por dentro, e mesmo assim, ainda as julgamos importantes.

Temos medo de abandoná-las e esse medo nos coloca numa situação de sofrimento, de desespero. Apertamos essas coisas contra nossos corações e terminamos derrotados por algo que tanto protegemos, acreditamos e defendemos.

Para que tudo dê certo em sua vida, é necessário reconhecer, em certos momentos, que nem sempre o que parece salvação vai lhe dar condições de prosseguir.

Tenha a coragem e a visão que o urso não teve.

Tire de seu caminho tudo aquilo que faz seu coração arder.

Solte a panela!

* * *

E que o vazio deixado pelo deixar ir, seja o espaço maravilhoso para se preencher novamente com o que lhe for melhor... Feliz todo a cada novo dia!!!

domingo, 26 de dezembro de 2010

Anjo da Vida

Duas mulheres, uma anciã e uma jovem viúva, estão sentadas em um quarto, na penumbra. Seus vestidos de luto fazem com que dos seus rostos e mãos emane uma pálida claridade. As mãos da jovem seguram o retrato do marido que acaba de perder a vida em um acidente. Tinham-no enterrado na manhã daquele dia.

Por muito tempo as duas mulheres ficaram sentadas, sem palavras e sem lágrimas. Finalmente a anciã tira das mãos da neta o retrato do marido e diz com voz baixa:
- Filha, ouve o que quero dizer-te.

A jovem não responde, mas a anciã começa a falar:
- Quando Deus me deu o primeiro filho, aconteceu que ele ficou doente e eu, sentada à noite ao seu lado, com uma mão no berço, adormeci. Tive um sonho muito estranho: detrás de uma cortina longa e densa saiu um anjo escuro e aproximou-se do berço, querendo levar o meu filho. Estendi logo as mãos sobre o berço e gritei:

- Não, Morte, não te deixo levar o meu filho!

O anjo sorriu e disse:
- Não me chamo Morte, chamo-me vida! Precisarei levar o teu filho. Ou preferes trocar? Queres este em lugar do bebê? Erguendo ele a cortina, saiu de lá um menino bonito e forte, de pele clara, olhos azuis e cabelos louros em caracóis. Mas a mim era estranho e gritei:

- Não, não o quero! Antes mata-me.

- Ninguém pode matar - replicou o anjo - Precisas concordar com a troca! Ou preferes este?

O menino desapareceu e em seu lugar apareceu um jovem.

- Toma este! Vê como ele é belo, seus membros bem proporcionados, corpo e alma com forças vibrantes.

- Não, não! - gritei outra vez.

E o anjo disse:
- Mas este amarás com certeza. - E mostrou-me a imagem de um homem de barba escura, bronzeado pelo sol e pelos ventos.

- Não, - voltei a gritar - nunca o amarei! Vou odiá-lo!

- Mas este aqui - o anjo continuou a argumentar comigo: era um velho de ombros largos e cabelos grisalhos.

- Não, não, não! Jamais trocarei. Vai embora e não toques no meu filhinho!

O anjo sorriu outra vez, dizendo:
- Certamente irás trocar e serás feliz. Vida e morte são uma coisa só. A morte não existe.

Assim dizendo, desapareceu. Acordei trêmula, ao lado do berço do meu filho que estava dormindo tranqüilamente.

Os anos passaram e eu fui trocando: o bebê pelo menino, o menino pelo jovem, o jovem pelo homem e o homem pelo velho. E fui me lembrando de cada um como o tinha visto no sonho. O grisalho, tu o conheces: é meu filho, teu pai!

A anciã se calou. E a jovem viúva ergueu o retrato do marido, dizendo: - Mas isto aqui não é troca, é roubo!

- Espera - disse a anciã - ainda não terminei. Na noite seguinte o sonho se repetiu. Vi outra vez o menino, o jovem, o homem e o velho e não quis saber nada deles. Mas, depois de mostrar-me tudo como na noite anterior, o anjo disse:

- Até aqui era só por brincadeira. Agora precisas aceitar uma troca bem mais difícil: aceita este em troca!

- Mas não vejo ninguém! - exclamei.

- Não podes vê-lo - replicou o anjo.

- Mas também não ouço ninguém.

- Pois ele não se deixa ouvir - respondeu o anjo.

Eu tateava ao redor:
- Ninguém está aqui!

E o anjo disse:
- Tampouco podes palpá-lo.

- Então zombas de mim ?

- Não. Tu não me entendes. Vou falar de outra maneira.

- Tu me darias os teus olhos em troca do filho?

- Leva-os! - gritei.

Logo caiu uma escuridão profunda sobre mim, mas ouvia ainda a respiração tranqüila do meu filho, como se fosse uma brisa noturna deliciosa.

- Mas não é ainda suficiente - disse o anjo - Dá-me a tua audição.

- Leva-a! - ordenei, e peguei o corpinho de meu filho com as duas mãos, beijando-o ternamente .

- Mas ainda não é suficiente - exigiu o anjo novamente.

- Dá-me todos os teus sentidos.

- Leva-os todos! - gritei, e afundei no nada.

- Onde está o meu filho? Onde?

- Podes crer: ele vive. O que desaparece dos sentidos nem por isso está morto. A morte não existe para aqueles que tem Jesus como o salvador que nos desperta a consciencia cristica, Deus criou só a vida. Entendes agora?

A estas palavras do anjo acordei. Muitas vezes tenho meditado sobre o que o anjo disse, e paulatinamente comecei a compreender. Muitas vezes somos servos dos nossos sentidos. Mas Deus como Senhor dos mil sentidos consegue transformar o que amamos, mil vezes. São transformações que não nos permitem ver, nem ouvir, nem apalpar. É por isso que falamos da morte.

Mas a morte não existe quando se tem Jesus como vida.

A vida natural rouba, e dá sem cessar. Se soubermos isto, qualquer sofrimento poderá transformar-se em alegria antecipada .

A anciã calou-se. Depois de algum tempo a jovem viúva repousou a cabeça nas mãos da velha, perguntando:
- Quem te ensinou tudo isso, amada avó?

- A vida, minha filha, a vida...

E a anciã acrescentou:
...e a morte!

* * *

Autor Desconhecido

* * *

"Para que os outros possam VIVER" - Recomendo o filme: "Anjos da Vida, mais bravos que o Mar"

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O orgulho do Samurai


Paraíso e inferno não são locais geográficos, são psicológicos, são a sua psicologia. Paraíso e inferno não estão no final de sua vida, estão aqui e agora. A cada momento as portas se abrem, a todo momento você fica ondulando entre o paraíso e o inferno. É uma questão de momento-a-momento, é urgente, em um único momento você pode mover-se do inferno para o paraíso, do paraíso para o inferno.

Ambos estão dentro de você. As portões estão bem próximos um do outro: com a mão direita você pode abrir um, com a mão esquerda você pode abrir o outro. Basta uma simples mudança na sua mente, seu ser se transforma. Do paraíso para o inferno e do inferno para o paraíso. Sempre que você age inconscientemente, sem percepção, está no inferno. Sempre que você está consciente, quando você age com plena atenção, está no paraíso.

O mestre Zen Hakuin é um daqueles raros florescimentos. Um guerreiro veio vê-lo, um samurai, um grande soldado, e ele perguntou: “existe algum inferno, algum paraíso? Se há um paraíso e um inferno, onde ficam os portões? Por onde posso entrar? Como posso evitar o inferno e escolher o paraíso?”

Ele era um simples guerreiro. Um guerreiro sempre é simples, do contrário não poderia ser um guerreiro. Um guerreiro só conhece duas coisas: a vida e a morte. Sua vida está sempre em jogo, está sempre apostando: é um homem simples. Não veio aprender uma doutrina. Ele queria apenas saber onde estavam os portais para que pudesse evitar o inferno e entrar no paraíso. E Hakuin respondeu de um modo que só um guerreiro podia entender.

O que fez Hakuin? Ele disse: “Quem é você?”

E o guerreiro respondeu: “Sou um samurai.”

No Japão, ser um samurai é uma grande honra. Significa ser um guerreiro perfeito, um homem que não hesita um único momento para dar sua vida. Para ele, vida e morte são apenas um jogo. Ele disse: “Sou um samurai. Sou o líder dos samurais. Até mesmo o imperador me respeita.”

Hakuin riu e disse, “Você, um samurai? Mais parece um mendigo.”

O orgulho do samurai foi ferido, seu ego pisoteado. Ele se esqueceu para que tinha vindo ali, puxou da espada e estava prestes a matar Hakuin. Esqueceu que tinha vindo até esse mestre para perguntar onde estava o portão do paraíso e o portão do inferno.

Hakuin riu e disse: “Este é o portão do inferno. Com essa espada, essa raiva, esse ego, assim se abre o portal.” Isso é algo que um guerreiro pode entender. Ele imediatamente compreendeu: esse é o portal. Ele guardou sua espada.

E Hakuin disse: “Aí está o portal para o paraíso.”

Inferno e céu estão dentro de você, ambos os portais estão em você. Quando você se comporta inconscientemente, aí está o portal do inferno. Quando você está alerta e consciente, aí está o portal do paraíso.

O que aconteceu a esse samurai? Quando ele estava prestes a matar Hakuin, estava ele consciente? Estava consciente do que ia fazer? Estava ele consciente do que tinha vindo fazer? Toda consciência havia desaparecido. Quando o ego toma o controle, você não pode permanecer alerta. O ego é a droga, o tóxico que lhe faz completamente inconsciente. Você age, mas a ação procede do inconsciente, não da consciência. E sempre que algum ato procede do inconsciente, a porta do inferno é aberta. O que quer que faça, se você não estiver cônscio do que está fazendo, o portal do inferno se abre.

Imediatamente o samurai ficou alerta. Subitamente, quando Hakuin disse: “Este é o portal, você já o abriu”. A própria situação deve ter criado atenção. Por pouco, a cabeça de Hakuin não foi decepada. Um simples momento mais e esta teria sido separada do corpo. E Hakuin disse: “Esse é o portal do inferno.”

Esta não é uma resposta filosófica. Nenhum mestre responde de um modo filosófico. Filosofia só existe para os medíocres, mentes não-iluminadas. O mestre responde, mas a resposta não é verbal, é total. Que esse homem podia tê-lo morto não é a questão. “Se você me matar e isso lhe tornar alerta, então vale a pena.” Hakuin arriscou tudo.

Isso deve ter acontecido com o guerreiro: parado, espada empunhada, com Hakuin bem diante dele – os olhos de Hakuin sorridentes, a face risonha, e o portal do inferno aberto. Ele entendeu: A espada voltou para a bainha. Enquanto punha a espada de volta na bainha, ele deve ter ficado totalmente silencioso, em paz. A raiva tinha desaparecido, e energia que se movia na raiva tornou-se silenciosa.

Se você, de repente, desperta em meio a raiva, você irá sentir uma paz que nunca sentiu antes. A energia movia-se e, subitamente, ela pára – você terá silêncio, silêncio imediato. Você irá cair no seu ser interior e, a queda será tão repentina, você ficará consciente.

Não é uma queda lenta. É tão repentina que você não pode permanecer inconsciente. Você só pode ficar inconsciente nas suas tarefas rotineiras, nas coisas graduais. Você se move tão lentamente que não pode sentir o movimento. Este movimento foi repentino – da atividade para a não-atividade, do pensar para o não-pensar, da mente para a não-mente. Enquanto a espada retornava para a bainha, o guerreiro compreendeu. E Hakuin disse: “Aqui está os portais do paraíso.”

O silêncio é a porta. Paz interior é a porta. Não-violência é a porta. Amor e compaixão são os portais.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Confie em Aláh, mas amarre seu camelo primeiro



Acontece todos os dias: você poderia ter feito alguma coisa, mas não fez e está usando a desculpa de que, se Deus quisesse que algo fosse feito, ele o faria de qualquer forma. Ou então você faz algo e espera pelo resultado, fica esperando, mas o resultado nunca chega. Então você fica zangado, como se tivesse sido trapaceado, como se Deus o houvesse traído, como se ele estivesse contra você, sendo parcial, preconceituoso, injusto. E então surge uma grande reclamação em sua mente. nessa hora, falta confiança.

Uma pessoa religiosa é alguém que fará o que for humanamente possível, mas não criará nenhuma tensão por causa disto. Por que somos muito, muito pequenos, átomos ínfimos neste universo, as coisas são muito complicadas. Nada depende apenas da minha ação: há milhares de energias se entrecruzando. A soma dessas energias irá determinar o resultado.

Como eu poderia determinar o resultado? Mas, se eu nada fizer, pode ser que as coisas nunca mais sejam as mesmas. Tenho que agir, mas ao mesmo tempo, tenho que aprender a não ter expectativas. Então o fazer torna-se uma espécie de oração, sem nenhum desejo de que tenha determinado resultado. Assim não há frustração. A confiança irá ajudá-lo a permanecer livre de frustrações, e "amarrar meu camelo" irá ajudá-lo a manter-se vivo, imensamente vivo.

Esse ditado sufi deseja criar o terceiro tipo de homem, o verdadeiro homem: aquele que sabe como fazer e como não fazer; que pode ser um fazedor quando necessário, pode dizer "Sim!", e que pode ser passivo quando necessário e dizer "Não". Aquele que está absolutamente acordado durante o dia e absolutamente adormecido durante a noite. Aquele que conhece o equilíbrio da vida. "Confie em Alá, mas amarre seu camelo primeiro." Este ditado vem de uma breve história.

Um mestre estava viajando com um dos seus discípulos. O discípulo estava encarregado de cuidar do camelo. À noite chegaram, cansados, a um abrigo de caravanas, um caravançará. Era tarefa do discípulo amarrar o camelo, mas ele não o fez, deixou o camelo do lado de fora. Em vez disso, ele simplesmente rezou.

Disse a Deus: "Cuide do camelo", e foi dormir. Pela manhã o camelo havia partido. Tinha sido roubado ou simplesmente seguiu seu caminho. O mestre perguntou: "O que houve com o camelo? Onde está o camelo?" E o discípulo respondeu: "Eu não sei. Vá perguntar a Deus, pois eu havia dito a Alá que tomasse conta do camelo, eu estava muito cansado, então não sei. E também não sou responsável, porque eu havia dito a ele, e de forma muito clara! Não havia como não compreender. Na verdade eu não disse isso apenas uma vez, mas sim três. E você nos ensinou a confiar em Alá, então eu confiei. Por isso não me lance esse olhar de raiva."

O mestre disse: "Confie em Alá mas amarre seu camelo primeiro, porque Alá não tem outras mãos a não ser as suas." Se ele quiser amarrar o camelo, ele terá que usar as mãos de alguém. Ele não tem outras. E é o seu camelo! A melhor maneira, e também a mais fácil, é usar suas mãos. Confie em Alá - não confie apenas nas suas mãos, pois do contrário você ficará tenso. Amarre o camelo e então confie em Alá.

Você perguntará: "Então por que confiar em Alá enquanto estou amarrando o camelo?" Porque mesmo um camelo amarrado pode ser roubado. Faça o que puder fazer, mas isso não garante o resultado, não há garantias. Então faça o que puder e aceite aquilo que acontecer. Esse é o sentido de amarrar o camelo: faça o que for possível fazer, não fuja de suas responsabilidades e, se nada acontecer ou se algo der errado, confie em Alá. Então ele terá razão. Então talvez seja correto que continuemos a viajar sem o camelo.

É muito fácil confiar em Alá e ser preguiçoso. É muito fácil não confiar em Alá e ser um fazedor. O terceiro tipo de homem é o mais difícil: aquele que confia em Alá e ainda assim permanece um fazedor. Mas nesse momento você é apenas um instrumento: Deus é aquele que verdadeiramente faz, você é um instrumento em suas mãos.

* * *

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O mestre, o jardineiro e o hóspede



O anseio da mente é de ser extraordinária. O ego tem sede e fome para que reconheçam que você é alguém. Alguém que realizará esse sonho através da riqueza, ou alguém que realizará o sonho através do poder, ou da política. Pode ser alguém que realizará o sonho através de milagres, de truques, não importa, pois o sonho permanece o mesmo: "É insuportável ser ninguém."

E este é o milagre, quando você aceita sua nulidade, quando você se torna tão comum quanto todos os outros, quando você não quer mais nenhum reconhecimento, quando puder existir como se não existisse. Estar ausente é o milagre.

Essa história é linda, uma das anedotas mais belas do Zen. Bankei é um dos Mestres supremos. Mas também era um homem comum.

Certo dia, Bankei estava trabalhando em seu jardim. Um buscador apareceu, um homem em busca de um Mestre, aproximou-se e perguntou a Bankei, “Jardineiro, onde está o Mestre?”

Bankei sorriu e disse, “Espere. Passe por essa porta, e lá dentro você achará o Mestre.”

Então o homem deu a volta e entrou. Encontrou Bankei sentado num trono, o mesmo homem que ele viu cuidando do jardim. O jovem perguntou, “Você está brincando? Desça desse trono. Isso é sacrilégio! você não tem respeito pelo Mestre.”

Bankei desceu, sentou-se no chão, e disse, “Assim você torna as coisas difíceis. Agora você não irá encontrar o mestre aqui, pois eu sou o mestre.”

Era difícil para esse homem entender que um grande mestre podia trabalhar no jardim, podia ser uma pessoa comum. Ele foi embora, pois não podia acreditar que aquele homem era o mestre, ele não entendeu.

Todos temem ser ninguém. Somente pessoas raras e extraordinárias não temem ser ninguém – um Gautama Buddha, um Bankei. Um ninguém não é um fenômeno comum; é uma das grandes experiências da vida – o fato de que você é, mas ainda assim não é. Que você é pura existência sem nome, sem endereço, sem fronteiras. Nem pecador nem santo, nem inferior nem superior, apenas um silêncio.

Pessoas estão com medo disso porque toda a personalidade delas terá então desaparecido; nome, fama, respeitabilidade, tudo se vai; daí, o medo. Mas a morte vai tirá-las de você de qualquer forma. Aqueles que são sensatos permitem que essas coisas caiam por si mesmo. Assim nada resta para a morte levar. Depois todos os medos desaparecem, pois a morte não pode acontecer a você; já que nada terá restado para ela.

A morte não pode matar um ninguém.

Uma vez que você sente essa anulação do ser, você se torna imortal. A experiência de anular o seu ser, de ser ninguém, é o sentido exato do nirvana, do nada, do silêncio absoluto e imperturbável, sem ego, sem personalidade, sem nenhuma hipocrisia. Apenas silêncio - e a sinfonia dos insetos no meio da noite.

Você está aqui de certa forma, e ainda assim não está.

Você está aqui devido a velha associação com o corpo, mas olhe para dentro e verá que não está. E esse insight, essa percepção, onde há puro silêncio e puro estado-de-ser, isso é sua realidade, que a morte não pode destruir. Essa é sua eternidade, sua imortalidade.

Não há nada a temer. Não há nada a perder. E se você acha que perdeu algo – nome, respeitabilidade, fama – estes são sem valor. Estes são brinquedos de crianças, não servem para pessoas maduras. É hora de você amadurecer, hora de você apenas ser.

Seu ser-alguém é tão pequeno. Quanto mais alguém você for, menor é; quanto mais ninguém você for, maior você é. Seja absolutamente ninguém, e você será um com a própria existência.

OM

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Gratidão... Uma noite sem abrigo.


A partir do momento em que uma pessoa é capaz de ser grata tanto pelo sofrimento quanto pelo prazer, sem qualquer distinção, sem nenhuma escolha, apenas sendo garto por aquilo que lhe é dado... Porque se foi dado por deus, deve haver uma razão para isso. Podemos gostar ou podemos não gostar, mas isso deve ser necessário para o nosso crescimento.

Inverno e verão são ambos necessários para o crescimento. Uma vez que essa idéia se fundamenta no coração, então cada momento de vida é um momento de gratidão. Deixe que isso se torne sua meditação e sua oração: Agradeça a deus por cada momento: pelos risos, pelas lágrimas, por tudo. Assim você verá surgir um silêncio em seu coração que você não conhecia antes. Isso é o êxtase.

A primeira coisa é aceitar a vida como ela é. Aceitando-a, o desejo desaparece. Aceitando a vida como ela é, a tensão desaparece, o descontentamento desaparece; aceitando-a como ela é, a pessoa começa a sentir -se muito alegre – sem nenhum motivo aparente!

Quando a alegria tem um motivo, esta não vai durar muito tempo. Quando alegria é sem razão, ela vai estar aí para sempre.

Isso aconteceu na vida de uma mulher Zen muito conhecida. O nome dela era Rengetsu. Muito poucas mulheres alcançaram o supremo no Zen. Essa é uma dessas raras mulheres.

Ela estava numa peregrinação e chegou numa vila ao pôr do sol e pediu abrigo para a noite, mas os vilarejos fecharam suas portas. Eles eram contra Zen. O Zen é tão revolucionário, tão totalmente rebelde, que é muito difícil aceitá-lo. Aceitando-o você vai ser transformado; aceitar o Zen será como passar através do fogo, você nunca mais será o mesmo novamente. Pessoas conservadoras sempre foram contra tudo que é verdadeiro na religião. Tradição é tudo que é inverídico na religião. Então esses moradores do vilarejo deviam ser os Budistas tradicionais, e não permitiram que essa mulher ficasse na cidade, eles a mandaram embora.

Era uma noite fria, e já velha, estava sem abrigo, e faminta. Teve que improvisar um abrigo debaixo de uma cerejeira nos campos. Estava realmente bem frio, e ela não conseguiu dormir bem. E era também perigoso – animais selvagens e tudo mais. A meia-noite ela acordou – devido ao frio intenso - e viu, no céu noturno, as flores abertas da cerejeira sorrindo para a lua enevoada. Tomada pela beleza, ela levantou-se e curvou-se na direção da vila, em sinal de agradecimento, com essas palavras:

Através de sua bondade ao recusar-me abrigo descobri-me sob as flores na noite desta lua enevoada.

Ela se sente agradecida. Cheia de gratidão, agradece aquelas pessoas que lhe recusaram abrigo. Do contrário estaria dormindo sob um teto comum e teria perdido essa bênção – o cerejeiro florido, esse sussuro com a lua enevoada, e o silêncio da noite, esse profundo silêncio da noite. Não está zangada, ela aceita o que aconteceu. Não só aceita-o, o recebe com boas vindas, ela sente-se grata. A pessoa torna-se um buda quando aceita tudo que a vida traz, com gratidão.

OM TAT SAT OM

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Uma parábola da ambição e da pressa

Além da ganância


Sempre que as pessoas se tornam gananciosas, elas ficam bem apressadas, e tentam encontrar meios de ir mais rápido. Estão sempre correndo pois acreditam que a vida está se esgotando. São essas as pessoas que dizem, "tempo é dinheiro."

Tempo é dinheiro? Dinheiro é muito limitado; o tempo é ilimitado. Tempo não é dinheiro, tempo é a eternidade. Sempre foi e sempre será. E você sempre esteve aqui e sempre estará aqui.

Então abandone a ambição e não se incomode com o resultado. Às vezes acontece que, devido a sua impaciência, você perde muitas coisas.

O homem fica completo se estiver em sintonia com o universo; caso contrário estará vazio, completamente vazio. E dessa vacuidade procede a ganância. A ganância serve para preencher esse vazio – com dinheiro, com casas, com mobília, com amigos, com amantes, com qualquer coisa – pois ninguém pode viver vazio. Isso é horrível, é uma vida fantasma. Se você estiver vazio e nada houver dentro de você, fica impossível viver.

Para ter a sensação de plenitude, só há dois caminhos; ou você entra em sintonia com o universo... Assim você fica preenchido pelo todo, com todas as flores e estrelas. Elas estão dentro de você assim como estão fora de você. Essa é a verdadeira plenitude. Mas se não fizer isso – e milhões de pessoas não estão fazendo isso – então o mais fácil é preencher o vazio com qualquer porcaria.

Ambição simplesmente significa que você está sentindo um vazio profundo e você quer preenchê-lo com o que for possível, não importa o que seja. E uma vez que você compreende isso, então você nada mais tem a ver com a ambição. Você tem algo a ver com vir para uma comunhão com o todo, assim a vacuidade interior desaparece. E com isso, toda ganância desaparece.

Mas há pessoas loucas por todo o mundo, e elas estão colecionando coisas para preencher a vacuidade delas. Há quem esteja acumulando dinheiro embora nunca o utilize. Há os que comem compulsivamente; e ainda que não sintam fome continuam a engolir. Sabem que isso irá criar sofrimento, que ficarão doentes, mas não conseguem parar. Essa comilança também é uma forma de preenchimento.

Portanto, pode haver muitas maneiras de preencher o vazio, embora este nunca seja preenchido – permanece vazio, e você permanece miserável, pois nunca há o bastante. Mais é necessário, e esse mais e a exigência por mais é infinita.

Você precisa entender a vacuidade que você está tentando preencher, e faça a pergunta, “Porque estou vazio? A existência é tão plena, porque me sinto vazio? Talvez tenha perdido o rumo – não esteja mais movendo-me na mesma direção, não seja mais existencial. Essa é a causa da minha vacuidade.”

Então siga a existência.

Relaxe, e aproxime-se da existência em silêncio e paz, em meditação. E um dia você irá perceber que estará pleno – abundante, transbordante – de alegria, de êxtase, de bem-aventurança. Você estará tão pleno desses sentimentos que poderá distribuí-los para o mundo inteiro e ainda assim não se sentirá cansado.

Nesse dia, pela primeira vez você não terá qualquer ambição – por dinheiro, por comida, ou por qualquer outra coisa.

Você viverá naturalmente, e encontrará tudo que você precisar.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O monge e a prostituta

Permanecendo CENTRADO


Onde quer que você esteja, fique centrado, torne-se mais alerta, viva de forma mais consciente. Não há nenhum outro lugar para ir. Tudo que tiver de acontecer, precisa acontecer dentro de você, e isso só depende de você.

Você não é um marionete, e as cordas que o sustentam não estão nas mãos de ninguém. Você é um indivíduo absolutamente livre. Se decidir permanecer nas ilusões, você pode ficar assim por muitas e muitas vidas. Se você decidir dar o fora, basta um único instante para decidir. Você pode deixar para trás todas as ilusões agora mesmo.

Buda estava em Vaishali, onde Amrapali viveu – Amrapali era uma prostituta. No tempo de Buda, na Índia, era comum que as mulheres mais bonitas de qualquer cidade não seriam permitidas casar com qualquer pessoa, pois isso irá criar desnecessário ciúmes, inveja, conflito, luta. Assim as mais belas mulheres tinham que se tornar nagarvadhu - esposas da cidade inteira.

Isso não era vergonhoso de maneira alguma; pelo contrário, elas eram muito respeitadas. Não eram prostitutas comuns. Só eram visitadas por aqueles muito ricos, ou reis, príncipes, generais – a classe mais alta da sociedade.

Amrapali era muito bonita. Um dia ela estava no seu terraço e viu um jovem monge Budista. Ela nunca tinha se apaixonado por alguém, mas ela sentiu-se subitamente apaixonada – um jovem de uma tremenda presença, percepção, graça. O jeito que ele caminhava... Ela desceu correndo e disse a ele, “Dentro de três dias a estação chuvosa vai começar...” Ela sabia que monges budistas não se movem durante quatro meses durante os quatro meses da estação de chuvas. Amrapali disse, “Eu lhe convido para ficar na minha casa durante os próximos quatro meses.”

O jovem monge respondeu, “Vou perguntar ao meu mestre. Se ele permitir, ficarei.”

O jovem monge foi, tocou nos pés de Buda e contou a história toda, “Ela me pediu para ficar os quatro meses na casa dela. Eu disse a ela que iria consultar meu mestre, então estou aqui... farei o que você disser.”

Buda olhou em seus olhos e disse, “Você pode ficar.”

Isso foi um choque. Dez mil monges... Houve grande silêncio mas muita raiva, muita inveja. Depois que o jovem saiu para ficar com Amrapali, os monges começaram a trazer fofocas todos os dias, “Toda a cidade está em rebuliço. Só se fala numa coisa – que um monge budista está na casa de Amrapali.”

Buda disse, “Vocês deveriam guardar silêncio. Eu confio no meu monge. Eu olhei nos de seus olhos – não havia nenhum desejo. Se eu tivesse dito não, ele teria se chateado. Eu disse sim... ele simplesmente foi. E eu confio na consciência dele, na sua meditação. Porque vocês ficaram tão agitados e preocupados?

Após quatro meses o jovem voltou, tocou nos pés de Buda – e com ele estava Amrapali, vestida como uma monja budista. Ela tocou nos pés de Buda e disse, “Eu dei o máximo de mim para seduzir seu monge, mas foi ele que me seduziu. Ele me convenceu pela sua presença e percepção que a verdadeira vida consiste em segui-lo.”

E Buda então disse para a assembléia de monjes, “Agora, estão satisfeitos ou não?” Se a meditação for profunda, se a percepção for clara, nada pode perturbá-la. Amrapali tornou-se uma das mulheres iluminadas entre os discípulos de Buda.

OM MANI PADME HUM

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Amizade

"...E que não haja outra finalidade na amizade
a não ser o amadurecimento do espírito.

Pois o amor que procura outra coisa
a não ser a revelação do seu próprio mistério não é amor,
mas uma rede armada, e somente o inaproveitável é nela apanhado.

E que o melhor de vós próprio seja para vosso amigo.
Se ele deve conhecer o fluxo de vossa maré,
que conheça também o seu refluxo.

Pois, que achais seja vosso amigo para
que o procureis somente a fim de matar o tempo?

Procurai-o sempre com horas para viver.
Pois o papel do amigo é o de encher vossa necessidade e não vosso vazio.
E na doçura da amizade,
que haja risos e o partilhar dos prazeres.
Pois no orvalho de pequenas coisas,
o coração encontra sua manhã e se sente refrescado.”

Gibran Khalil Gibran


Um jovem recém casado estava sentado num sofá num dia quente e úmido, bebericando chá gelado durante uma visita ao seu pai. Ao conversarem sobre a vida, o casamento, as responsabilidades da vida, as obrigações da pessoa adulta, o pai remexia pensativamente os cubos de gelo no seu copo e lançou um olhar claro e sóbrio para seu filho.

- Nunca esqueça de seus amigos, aconselhou! Serão mais importantes na medida em que você envelhecer. Independentemente do quanto você ame sua família, os filhos que porventura venham a ter, você sempre precisará de amigos. Lembre-se de ocasionalmente ir a lugares com eles; faça coisas com eles; telefone para eles...

Que estranho conselho! Pensou o jovem. Acabo de ingressar no mundo dos casados. Sou adulto. Com certeza minha esposa e a família que iniciaremos serão tudo que necessito para dar sentido à minha vida!

Contudo, ele obedeceu ao pai. Manteve contato com seus amigos e anualmente aumentava o número de amigos. Na medida em que os anos se passavam, ele foi compreendendo que seu pai sabia do que falava. Na medida em que o tempo e a natureza realizam suas mudanças e mistérios sobre um homem, amigos são baluartes de sua vida. Passados mais de 50 anos, eis o que aprendi:

O Tempo passa. A vida acontece. A distância separa. As crianças crescem.

Os empregos vão e vêem. O amor fica mais frouxo.

As pessoas não fazem o que deveriam fazer. O coração se rompe.

Os pais morrem. Os colegas esquecem os favores. As carreiras terminam.

MAS... os verdadeiros amigos estão lá, não importa quanto tempo e quantos quilômetros estão entre vocês. Um amigo nunca está mais distante do que o alcance de uma necessidade, torcendo por você, intervindo em seu favor e esperando você de braços abertos, abençoando sua vida!

Quando iniciamos esta aventura chamada vida, não sabíamos das incríveis alegrias ou tristezas que estavam adiante. Nem sabíamos o quanto precisaríamos uns dos outros.

* * *

Já tinha recebido esta mensagem falando no aspecto feminino com relação às amigas-irmãs... É isso! Amizade é o amor que está além de qualquer interesse, quando é verdadeira, é claro!!!

Um dia de luz
beijom